quinta-feira, janeiro 22, 2009

Duas coisas

Escrevo porque fui incomodado. O texto anterior, apesar de não ser lá muito surpreendente para quem já teve oportunidade de dividir anseios com a autora (rs), me fez pensar numa série de coisas sobre minha própria vida, minhas metas e meus sonhos.
Não sei quantos de vocês concordam, mas eu tenho uma teoria: por mais que definamos os rumos a seguir, tracemos planos e implantemos em nossas vidas planejamentos estratégicos voltados para o fim de ter dois filhos lindos e uma casa na praia, o que define em que beco vamos parar é o bendito acaso. Sim, aquele fato isolado que acontece porque você deixou de planejar uma ínfima parte de seu dia, esse pequenino fato definirá as mudanças nos seus planos, que por sua vez o levarão a um novo momento casual que mudará sua vida.
Eu poderia citar inúmeros exemplos, mas como seriam de minha própria vida - e sendo ela levemente confusa - a teoria não estaria fundamentada. Vamos lá: quantos de vocês conheceram um grande amor numa festa que não queria ir? quantos foram parar num dado lugar por conta da insistência de um amigo e lá descobriram uma oportunidade que mudou sua vida? Quantos optaram pela sociologia (ou pela química orgânica) por terem assistido a uma aula, uma única aula, que deu sentido a todo o conjunto de informações que você ja assimilara durante a trajetória? Todas essas coisas aconteceram comigo e, alimentado pela curiosidade inquietante que incomoda quase todos aqueles que tiveram um contato mais ou menos demorado com as ciências sociais, procurei investigar as vidas alheias. Fiquei surpreso ao saber que meu chefe se tornou engenheiro porque cancelou uma viagem à europa na véspera do embarque, e que meu tio conheceu sua mulher por causa de um pneu furado... para ficar nos exemplos mais emblemáticos.
Isso me faz discordar de Fernanda. Não acho que a pretensão seja suficiente para vencer o poder do acaso. Por exemplo: eu não gosto dos livros de Paulo Coelho. Se o cara que leu o primeiro ensaio de Paulo Coleho e abriu caminho para o lançamento do seu primeiro livro pensasse como eu, nada disso teria acontecido, ele poderia encher o saco ou arrumar um emprego, ou ainda ser aprovado num vestibular para física e descobrir que os estudos sobre a relatividade eram sua verdadeira "vocação". É só para provocar um ponto, posso desenvolver melhor minha linha de raciocínio depois, mas agora quero falar de mais uma coisa.
***
É incrível como a mediocridade tem vencido a genialidade nos tempos atuais. É certo que os gênios, quase sempre, têm sua genialidade reconhecida muito tempo depois de descerem os sete palmos de chão. Porém, como vivo neste tempo, e por isso temo sentir tudo incrivelmente mais absurdo nesse tempo, por ser o único em que viverei, defendo que a vitória da mediocridade têm sido ainda mais contundente.
Eu sou a favor da completa adoração dos gênios. Isto porque eu não sou um gênio, eu reconheço que não o sou, e por isso admito, com relutância, que só é possível levar a vida mais ou menos confortável que tenho hoje porque existiriam e continuam a nascer gênios, grupo do qual não faço parte, o que me leva a pensar que minha existência é um favor. Um favor concedido pelos gênios.
Por pensar assim, me irrita profundamente que pessoas mediocres sejam capazes de destruir a reputação e a obra de gênios. Fico furioso quando vejo, por exemplo, Caetano Velloso tendo de se defender de críticas de um fofoqueiro qualquer que escreve anonimamente numa coluna de jornal. Ou quando vaiam João Gilberto. Até mesmo quando condenam Ronaldo por ter dormido com três travestis.
Deixo aqui meu repúdio à repressão a genialidade. Uma sociedade onde se ridiculariza os gênios, tende ao fim. Existimos graças a benevolência dos gênios, seus infiéis!

5 Comments:

Blogger Marcus said...

Concordo com o facto do acaso mudar o rumo dos nossos planos e conduzir nossas experiências por caminhos inesperados e, muitas vezes, surpreendentes. Aliás, seu texto faz-me lembrar o diálogo entre as teorias que fundamentam o utilitarismo e o interacionismo simbólico..se me lembro bem, superficialmente falando, o indivíduo traça os meios para alcançar um determinado fim..mas as interações ao longo desse processo modificam os meios e redefinem o final, que esperamos que seja sempre feliz!! hehe!!

Quanto aos gênios, suas obras jamais serão destruídas ou, se quer, ofuscadas pela medíocridade.Essa, com certeza, não é a preocupação destes. Entretando, por serem gênios, não espere que sua genialidade seja logo reconhecida por todos, se fosse desta forma, não seriam gênios...Os gênios estão a frente do tempo e só serão reconhecidos quando o tempo em que se antecipou chegar.


Ahhh, outro diz pensei em dividir um pouco das minhas experiências cotidianas e escrever tb e matar a saudade de todos vocês, mas não consigo postar. Como faço? Ou é só pro selecto grupo de gênios do curso de CISO que frequentei e, por isso, estou excluído?

GRANDE ABRAÇOOO PARCEIRO!!! SAUDADE!

Marcus Vinhas

5:55 PM  
Blogger Antonio Rimaci said...

Grande Marcus!
Seria muito interessante compartilhar de suas experiências! Mas isso depende do dono do blog, o praticamente inalcançável, Rafael Arantes.
Vamos ver se ele lê esses comentários e toda uma providência.
Obrigado pela leitura, parceiro!

abraço!

10:04 PM  
Blogger Fernanda Furtado said...

Sobre o ataque aos gênios: fiquei curiosa para saber o que foi que motivou esse trecho.

Sobre a pretensão e o acaso: É certo que Paulo Coelho poderia ter persistido até a morte e não se tornar um escritor famoso se não fosse pelo acaso, mas para defender um pouco o lado da pretensão é preciso dizer que o primeiro ensaio dele foi odiado, que ele enchou o saco e foi arrumar um emprego, e nisso ficou até lá pelos 40 anos. Só que não aguentou, chutou o pau da barraca e acabou dando no que deu.

Acho que tem um pouco dos dois lados. Tem a hora certa, o lugar certo, mas também tem o fato de você estar preparado porque você esteve esperando e lutando por aquilo. Afinal, jogar a culpa toda no acaso (ou no destino) não acaba sendo a mesma coisa que esquecer do indivíduo e jogar a culpa toda na estrutura? Nossa, essa foi f...

Abraços.

5:56 PM  
Blogger Rafael Arantes said...

Eu vaiaria João Gilberto...

7:22 AM  
Blogger Antonio Rimaci said...

Fernanda, Não há um motivo fundador do argumento, mas sim uma série deles. Inclusive os mais cotidianos, citados no texto. Eu realmente acho que tratamos muito mal os gênios,e quando digo isso não me refiro apenas aos artistas, mas os gênios da ciência, principalmente. Eu realmente acredito, dentro de minha concepção de dever ser, que os gênios deveriam ser mais bem tratados em vida, ate pq hoje em dia é mais facil reconhecer um gênio do que já foi antigamente. enfim...

Rafael, eu não vou com a cara de João, mas o que ele criou eu não tenho condições de fazer igual. Se ele cobra um ingresso (caro) para apresentar o gênero musical que ele criou - e só o fez por ter esse estilo insuportável dele, sabemos que ele sempre foi assim e não é agora que vai mudar - eu não vou pagar apenas pra vaiar. É mediocre, é querer sacanear um cara que pode mais do que eu pra tentar esconder essa diferença absurda no que tange ao talento musical. É a formiginha da sacanagem que futuca os públicos brasileiros. É por isso que acho absurdo vaiarem João Gilberto, pelo menos no show DELE. Mas isso é muito pouco importante... Eu apenas usei o exemplo de João, quando na verdade queria falar muito mais de gênios que facilitam nossa vida cotidiana como um todo e não são valorizados. Talvez eu tenha usado os exemplos errados.

12:43 PM  

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