sexta-feira, abril 20, 2007

Questões de método, teoria e prática...

Caros amigos, depois de muito tempo sem escrever no blog, me vejo tomado por uma inspiração de novamente fazê-lo. E não é uma inspiração qualquer. Depois do meu 8º semestre no curso de Ciências Sociais, acho que compreendi ou estou no caminho de compreender o que é, de fato, esta tão polêmica Estrutura Social. Sempre tive muitas dúvidas a seu respeito. A estrutura social são as normas gerais de condutas, a moral e toda aquelas regras tácitas e explícitas; são a cultura e os hábitos, costumes e a organização simbólica; ou são as posições que cada indivíduo ou grupo social ocupa na sociedade, a exemplo da divisão social do trabalho ou da estrutura de classes? Penso ter desenvolvido um pequeno esquema que resume o que seria a Estrutura Social incluindo essas noções e mais algumas outras.

Esse esquema foi desenvolvido na aula de Antropologia Simbólica, ministrada por Tromboni, e a partir dos insights que a mesma e o mesmo vêm me proporcionando. Claro está que, como qualquer esquema, este também é arbitrário e pode conter defeitos de realidade, por assim dizer, ou de inteligibilidade. De fato, acho que ele peca pela simplicidade – o que também pode ser uma qualidade – e pela tentativa de ser pedagógico, admito que para mim mesmo essa necessidade. De qualquer forma, acredito que a partir do esquema podemos compreender melhor que é Antropologia, Sociologia e Ciência Política, bem como tornar mais claro o que é o método estruturalista e a hermenêutica. Como ele contém setas e componentes gráficos, fiz um desenho um tanto quanto simplório, mas que me parece suficiente para os objetivos desta postagem. Quero deixar claro, entretanto, que a ordem do esquema poderia ter sido alterada e colada de baixo para cima. Todavia, assim o fiz, pensando em axiomas básicos que tornam possível a existência da próxima etapa, embora saiba que um momento não existe sem o outro e que estão todos em relações constantes. Pois bem, segue o famoso e, a partir de agora, me permitam ser um pouco mais formal e escrever na 2º pessoa do plural.



O primeiro elemento é a “estrutura básica da unidade psíquica do homem”. Pensamos que este elemento se mostra fundamental na constituição da estrutura social, uma vez que ele faz parte do aparelho biológico do homem e do qual todas as emanações de elementos simbólicos e organizadores podem aparecer. É desta tal unidade que compreendemos que todos os homens são iguais em potencial, a despeito de sua cultura, grupo ou etnia.

O segundo elemento é a estrutura de relações lógicas. Esta estrutura mantém com a primeira uma relação inata. Isso quer dizer que ainda estamos em um momento de mediação biológica da estrutura social. Entretanto, o que diferencia a “estrutura de relações lógicas” da unidade psíquica do homem é o grau de sofisticação e realização daquela. Enquanto que a primeira do esquema de configura em um elemento que proporciona, por assim dizer, uma potencialidade a todos os homens, a segunda se configura como a realização primeira deste potencial. Ainda estamos no âmbito do aparelho biológico e isso significa que todos os homens têm um inconsciente regido por operações lógicas comuns.

Em terceiro lugar, emerge a estrutura simbólica, i.e, a cultura. As definições de cultura são muitas, mas o importante é compreender que a cultura é um sistema simbólico, de relações entre elementos objetivos e subjetivos, significantes e significados, tendo, entretanto, estes últimos uma dinâmica própria, não passível de definição clara, dos quais emergem uma gama de relações, interpretações, significações e re-significações individuais, grupais, societais. A cultura mantém com a estrutura de relações lógicas uma relação inconsciente, na medida em que ela se organiza a partir de operações lógicas comuns entre todos os homens, mas é essa organização que se diferencia de um grupo para o outro, enfim, de uma cultura para outra. É o arranjo que define culturas diferentes, entretanto, as operações lógicas que subjazem essas operações são as mesmas. Podemos dizer que a relação entre essas duas dimensões se dá no nível inconsciente porque não há dialogo racional e consciente na relação das operações lógicas com o emergir de uma cultura.

Continuando, cada cultura, dependentemente do seu arranjo, constitui uma outra estrutura, a saber, a estrutura de posições ou papéis sociais. Essa estrutura é aquela que representa as posições que cada indivíduo, grupo, nação ou quaisquer outras categorias analíticas ocupam nas relações sociais. Podemos observar que essa estrutura de posições pode ser caracterizada a partir de uma série de fenômenos. Classicamente, foram abordadas as estruturas de classe e a divisão social do trabalho. Todavia, podemos dividir a estrutura em várias posições, pobres e ricos, negros e brancos, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, professores e alunos, etc. A depender do estudo que se possa fazer, a estrutura de posições sociais pode ser caracterizada de diversos modos diferentes e de acordo com os mais variados objetivos. Entretanto, acreditamos que a estrutura de classe a divisão social do trabalho continuam sendo as estruturas de posições e papéis mais utilizados nas Ciências Sociais. A partir desta estrutura, passamos a ter relações dialógicas entre as estruturas precedentes e as atuais, por assim dizer. Isso quer dizer que essas relações não são mecânicas, ou seja, dependem de elementos simbólicos, da racionalidade do homem, do seu interesse e da forma como ele significa e re-significa a realidade social, os papéis sociais e cosmologia que guia – e guiar não quer dizer determinar – as suas experiências.

Por fim, incluímos aqui a ação social. Esquecida pelos estruturalistas e idealizada talvez pela hermenêutica, consideramos a ação social como parte fundamental da Estrutura Social. Sem ela, não poderia haver elementos que dessem vida a qualquer das estruturas. Ação Social, onde há espontaneidade, onde há criatividade, onde há racionalidade, mas também onde há elementos arraigados, coerções, elementos morais. A ação não é determinada por nenhuma das outras estruturas, mas também não pode existir sem que as estruturas existam. Se as normas não conseguem abarcar todas as experiências cotidianas vividas pelos atores sociais, a Ação Social também não pode ocorrer sem nenhuma fundamentação com a qual possa dialogar. A Ação Social não apenas dialoga com a estrutura de posições, mas também com a estrutura simbólica. É a partir dela que se constroem as duas estruturas e a partir das duas estruturas que se constrói a Ação Social. São produção e reprodução da vida social. São elementos unos, que não pode ser separáveis a não ser do ponto de vista pedagógico. A Ação Social mantém com as outras estruturas a relação dialógica por excelência, exercendo toda a potencialidade reflexiva do ser humano.

Dissemos-lhes, anteriormente, que a partir deste esquema, seria possível compreender melhor o que é a Sociologia, a Antropologia e a Ciência Política. Acreditamos que podemos, pelo menos, clarear essas diferenças, mas não do que é cada ciência, mas sim do que tem sido. Essa explicitação pode ser bastante controversa na medida em que cada ciência mantém abordagens diferentes dentro do seu escopo, a depender, principalmente, do referencial teórico-metodológico, ou seja, do prisma com o qual a realidade vai ser lida. Não podemos, entretanto, confundir objeto com método, mas, grosso modo, acreditamos que o objeto pode ser descrito pela importância de cada dimensão do esquema para cada ciência e o método pela relação escolhida para abordar estas dimensões. De qualquer forma, estaremos lidando com as definições clássicas e simples, por vezes simplórias, de cada uma destas ciências, apenas com o intuito de situar suas diferenças.

Pois bem, de uma maneira geral, acreditamos que a Antropologia talvez seja, das três, a ciência mais completa e mais ampla. A antropologia parece abordar as cinco dimensões da Estrutura Social. Na verdade, acreditamos que a Antropologia, a despeito de suas grandes pretensões, acaba por enfocar mais as estruturas de relações lógicas e as estruturas simbólicas. Estamos falando de Antropologia e não de Etnologia. Entendemos Antropologia como a Ciência que estuda o homem, principalmente através de sua estrutura simbólica, ou seja, a cultura. A Etnologia talvez se mantivesse, preferencialmente, dentro da relação entre as estruturas simbólicas, de posições e a ação social. A Antropologia estrutural e a hermenêutica se diferenciam pela relação que vão privilegiar dentro destas estruturas preferenciais. Podemos dizer, grosso modo, que a Antropologia estrutural, definitivamente, estuda a estrutura de relações lógicas e o sistema simbólico, compreendo a ação social como confirmador dessas operações, leis e formas e enfocando a relação inconsciente que esta tem com a cultura e estas operações. A Antropologia hermenêutica se foca mais nas relações dialógicas que se estabelecem entre a ação social, a estrutura de posições (sem aprofundar demasiadamente) e a estrutura simbólica. Não confundamos, porém, Antropologia Hermenêutica e Etnologia. A Etnologia parece tratar-se mais de um momento de campo, mais específico e a Antropologia Hermenêutica, mesmo se baseando nas mesmas relações, pretende, de alguma forma, compreender o homem na sua totalidade, dentro de relações sociais totais, o que não significa dizer coercitivas e sem espontaneidade ou liberdade.

Quanto à Sociologia, a compreendemos, a princípio, como a definição clássica da relação entre indivíduo e sociedade. Isso nos remete, no nosso esquema, a ação social e a estrutura de posições. Acreditamos que a Sociologia tem sido, por excelência, a Ciência que estuda esta estrutura de posições em relação com a ação social. Dependendo do método escolhido, poder-se-ia focar mais na estrutura de posições (análises estruturais que deram origem a MacroSociologia), como é o caso do Marxismo, das obras de Durkheim e seus seguidores, do Funcionalismo, o Estrutural-Marxismo entre outras correntes. Ou poder-se-ia focar a Ação Social e todo o mecanismo individual e interacional que tornam possível a vivência cotidiana dentro de uma sociedade, como é o caso da Escola de Chicago, Fenomenologia, Etno-Metodologia, entre outras escolas (análises hermenêuticas, compreensivas ou interpretativistas que deram origem a MicroSociologia).

Por fim, acreditamos que a Ciência Política, definitivamente, pretende estudar a Estrutura de Posições e sua relação com a Ação Social de uma ótica específica. Compreendendo Ciência Política como a Ciência que estuda as relações de poder, principalmente dentro do âmbito do Estado e das Instituições Políticas consensuais de uma sociedade, fica claro que seu objeto de estudo se situa dentro da Estrutura de Posições, focando as posições decorrentes de poder instituído e tido como legítimo, pelo menos por uma grande parte dos atores, e privilegiando sua relação com uma a Ação Política. Em termos de método, salvo engano, acreditamos que a Ciência Política não venha trabalhando muito com a hermenêutica. Acreditamos que a análise estrutural da organização do Estado e das instituições prevaleça nesta Ciência até pelos motivos óbvios de que as Estruturas Políticas são as mais coercitivas e com as quais é mais difícil de dialogar. Isso não significa que não haja diálogo ou que o ator político seja determinado por estas estruturas. Por isso, a hermenêutica talvez possa ser usada, da mesma forma que na Sociologia, para estudar a relação entre a Ação Política e as estruturas institucionalizadas.

De uma maneira geral, definimos o método estrutural como aquele que se foca nas estruturas de relações lógicas, no sistema simbólico (apreendendo este como um sistema realmente) e nas estruturas de posições, argumentando que ele procura compreender a Ação Social a partir das estruturas subjacentes e inconscientes que guiam toda e qualquer espécie de experiência cotidiana. Definimos, também, hermenêutica como aquele método que pretende compreender a Ação Social, estudando os sujeitos sociais, suas motivações, sua subjetividade, as relações que travam com os outros sujeitos sociais nas suas experiência cotidianas e procurando compreender como é deste nível de relações que a sociedade e a estrutura emerge. Na nossa concepção, temos dois métodos importantes, mas que têm sido equivocadamente utilizados nas Ciências Sociais. O estruturalista ruim é aquele que leva em conta a Ação como mera repetição de normas gerais e a interpretação hermenêutica equivocada é aquela em que a subjetividade e o ator social são demasiadamente idealizados como se fosse possível viver sem qualquer tipo de orientação moral, cultural ou de papel social. Acreditamos que o verdadeiro método das Ciências Sociais é aquele da síntese.

Estamos em momento de síntese, não há mais lógica para que contradições continuem a ser perpetuadas apenas como forma de aumentar os privilégios políticos de cada grupo. A BOA Ciência Social é aquela que compreende que há, sim, estruturas anteriores, cristalizadas, por vezes, institucionalizadas e que qualquer ator social se vê as voltas com ela em todas as ações que impetra. Entretanto, essas regras são por demais gerais para normatizar todas as esferas da experiência cotidiana (Como diria este blog). O sujeito tem criatividade, tem liberdade, tem espontaneidade, tem relações e interpretações corpóreas, significa e re-significa, produz e reproduz a realidade que conformam, por excelência, a vivência deste ator no mundo. É o tão famoso Mundo da Vida. Não há quaisquer estruturas sem Mundo da Vida e não há Mundo da Vida sem quais orientações prévias.

Enfim, meus caros (agora falo em primeira pessoa), coloquei à análise de vocês esses insights. De fato, esta postagem tem por objetivo que minhas idéias passem pelo seus crivos. Elas ainda estão em maturação e, como melhor forma de objetivar idéias, decidi escrever para ver quais seriam as críticas e sugestões. Por favor, não temam em fazê-las. Acho que esta discussão, por demais teórico-metodológica para alguns, é importante para nossa formação.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Meu caro,

Bem, antes de mais palavras, permita-me saudá-lo, uma vez que há um bom tempo não nos falamos. Finalizo aqui uma babação arbitrária.
Pois bem, o texto está bacana, porém, permito-me tecer algumas críticas.
A primeira delas é que você diz que escreverá em segunda pessoa do plural, todavia, por outro lado, você escreve na primeira pessoa do plural. Um outro ponto é que você bateu muito no martelo de uma BOA teoria e uma teoria RUIM. Considero esses termos um tanto pesados e um pouco perigosos para um texto. Um terceiro momento, que achei muito interessante, é o diálogo que você tenta estabelecer entre as ciências sociais, apesar de a ciência política não conseguir se encaixar muito bem num mesmo contexto dialógico entre sociologia e antropologia. Obviamente, recordo-me dos textos de Mauss e, por outro lado, do próprio Dürkheim das "Formas Elementares". Aliás, podemos compreender que esta segregação é um tanto quanto medíocre, mas, como diz fica claro nos textos de Simmel, a cultura objetiva tende a crescer e suprimir, cada vez mais, a cultura subjetiva, que é a própria noção de especialização. Mais ridículo que uma distinção ferrenha entre Antropologia e Sociologia são as várias modalidades destas, como: sociologia da religião, do trabalho e etc. Pensando em Albergaria, seria bacana criar uma antropologia do sexo, do bacanal, do promíscuo... Cessada a idiotia, voltemos ao texto.
Uma outra coisa que me incomodo por demais foi a sua distinção (ainda que você tenha a criticado) entre micro e macro sociologia. Engraçado que você enveredou uma concepção estrutural por uma lógica macro e uma concepção interacionista pela micro, mas, onde se encaixaria Weber, por exemplo? Não podemos trabalhar com estas noções velhas e dicotômicas da sociologia. Se pegarmos, Mozart, de Elias, podemos perceber como ele trata de toda uma configuração, a partir de um único indivíduo. Este modelo de macro e micro é muito falho, não há necessidade de continuarmos nos apegando à esta separação tão pobre.
Bem, um outro ponto, é sua investida no caráter de uma antropologia simbólica que, para tanto, você parece adentrar numa espécie de antropologia arqueológica, uma vez que você tenta remontar todas as estruturas do homem, desde a mais primária até a sua mais "evoluída", a simbólica. No entanto, você acabou pouco comentando sobre os dois momentos primeiros (psíquica e das relações lógicas) e focou demasiadamente na estrutura simbólica. Obviamente, por outro lado, a representação de papéis é algo deveras questionável, quando pensamos num modelo estruturalista. Goffman já tece certas críticas ainda que, por outro lado, trate o indivíduo como hiperreflexivo (ou é isso que ele nos proporciona a pensar). Por conseguinte, a concepção que me parece bastante interessante é a de Mead, em que os papéis nunca estão tão bem definidos e, por outro lado, o indivíduo não porta consigo um caráter de hiperreflexividade, ele estaria mito mais num âmbito do "sensus communis", como afirmou Kant, ou ainda, num processo de intersubjetividade. E, com isso, acredito que a hermenêutica de Weber, Simmel e Elias, por exemplo, não trabalha com a subjetividade, mas sim com um processo intersubjetivo, ou seja, que evidencia o diálogo constante entre o que se convencionou chamar de estrutura e ação, ou ainda, a própria ação pode ser entendida como este diálogo (o "self"). Acabei concordando contigo, este conceito meadiano pode muito bem ser entendido como uma síntese, ainda que logre algumas problemáticas para si. Obviamente, podemos compreender, por outro lado, que o Interacionismo Simbólico é ainda um tanto quanto falho para lidar com este diálogo, pelo menos, o que pude extrair do livro de Blumer. A noção dialógica de Mead é muito mais interessante.
Por fim, é válido evidenciar que nem o próprio Bourdieu dá uma síntese satisfatória. Sugiro que você pegasse alguns textos de Elias para ler. Por mais que Felippe tenha dito que é uma merda. Não penso que seja assim, Iracema pode ter ministrado as noções eliasianas mal. Precisamos ler para criticar. Ou ainda, os autores que me parecem bastante interessantes são o próprio Schutz e, por outro lado, Giddens. Como último ponto, ao invés de nos enveredarmos pela antropologia estrutural de Lévi-Strauss, seria muito interessante pensar nas contribuições de Geertz, um outro autor que já opera com a noção de síntese entre "ethos" (que pode ser entendido como estrutura) e visão de mundo (que pode ser compreendida como ação).

Um forte abraço,

Victor.

P.S.: Senti falta de citações suas, não se aproprie das idéias dos autores de modo inconseqüente.
P.S.: Desculpe-me pela demora deste brevíssimo comentário.

1:32 PM  

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